Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Descarga

*bruno bandido - leia mais em http://brunobandido.wordpress.com

De acordo com as últimas pesquisas ninguém lê o blogue, então vou poder falar sobre Pablo Beato. Sim, sempre quis falar sobre ele, mas respeitei sua vontade de ficar guardado em páginas não publicadas de um livro proibido. Proibido pelo próprio autor.

Em Julho do ano passado, quando os castelhanos invadiram a noite jaguarense eu sei lá o porquê, tava conversando com uma hermosa chica de Montevideo, Lucille o nome dela, quando ouvi falar em Pablo pela primeira vez. Eu já tava espantado por manter uma conversa sobre Julio Cortázar no bar do Gijo quando ela citou Kerouac e eu pulei de bêbado. Ah Lucille, no auge do meu porre eu queria casar com ela e morar em algum chalé no meio da estrada como Burroughs e sua esposa (que depois ele matou sem querer).

E foi falando nos beats que Lucille me contou de um primo de sua mãe, Pablo, que ao ganhar milhões de pesos de indenização pelo atropelamento de seu pai na década de 60, matou – no sentido psicanalítico da palavra – o resto de sua família e foi viajar. Começou por Trinta y Três, sua cidade natal e de carona foi a Montevideo aonde pelo mar chegou à Argentina. Daí, fez a trilha de Guevara, mas não parou e subiu até o México, onde em histórias a la Jack Kerouac e Neal Cassady se apaixonou por uma puta chicana e morou por um tempo as suas custas, já que o que sobrava do seu dinheiro era pra subir mais e mais.

Já era 1978 e Pablo entrou ilegalmente nos Estados Unidos da América. Seu auto-pacto era que nunca gastaria o dinheiro enquanto estivesse nas cidades, apenas para seguir viajem. Então, como todo latino em Miami tem que fazer, meteu-se com dinheiro sujo e trambiques de mercadorias ilegais por lá. Quando a coisa tava preta prum monte de mexicanos, encontrados e deportados um a um, Pablo se mandou de sua breve e falha estadia no primeiro mundo. Porque seu lugar era o sul, ele sabia disso e desbravou Bolívia, Venezuela, Colômbia e se mandou pra Bahia. Lá, ele já não tinha dinheiro nenhum, trabalhou em um restaurante de meio dia e morou na casa de um casal (donos do restaurante) que o acolheu. Ficou na Bahia de 1985 até 1994, quando soube que sua irmã mais velha estava doente em Melo e voltou rapidamente com o dinheiro que lhe foi enviado pela família, que administrou bem a sua parte da indenização. Viu a última semana de sua irmã, morou em Melo, voltou a Trinta Y Três e morreu por lá em 2001 com problemas devido à bebida.

Eu li toda história dele no seu diário de bordo, escrito por todos aqueles anos que viajou. Lucille, me prometeu pelo msn e me trouxe quando voltou em Janeiro para casa de parentes no Rio Branco. Ele escreveu histórias hilariantes e apaixonadas e tristes como quando teve que deixar a prostituta mexicana que tanto amava, ou a cozinheira do restaurante baiano em que trabalhou, a qual disse que estava grávida uma hora antes dele retornar para casa. Pablo Beato, como se intitulava, inspirou-se nos Beatnicks e em Che Guevara para conhecer o famoso e o sombrio da América, para apostar em brigas de galo em Santiago del Chile, ou gritar para as estrelas chapado em Machu Pichu. Mas ao contrário de seus ídolos, não quis publicar seu diário nem suas histórias, pois de acordo com Lucille, não queria incentivar ninguém essa vida, como Ginsberg e Jack london o incentivaram anos atrás. Ele virou um velho bêbado e louco como um Kerouac sem fama.

No desespero de saber que nunca mais leria aquele diário, com letra difícil de entender e espanhol de gírias, pensei na hipótese em roubá-lo, enquanto Lucille tava no banheiro, e sair correndo pela ponte com ele em meus braços. Pensei, rapidamente, em pedi-la em casamento pra nunca mais sair de perto daquele vulcão de histórias. Eu tive em minhas mãos o On The Road latino americano e o deixei ir embora livre num ônibus para Montevideo. Grande cagada minha.

Lucille conta que quando pediu o diário de seu primo/tio de não sei quantos graus, dois anos antes de sua morte, ele disse “pode ficar” e salientou que nem todas histórias eram totalmente verdade, quem é que não aumenta o que conta, eu me perguntei. Ainda, numa tentativa idiota de desespero, falei que ela deveria mandar aquilo pra todas as editoras, vai que uma aceitava. Ela se ofendeu a respeito do tio.


*bruno bandido é um subversivo que adora uma subliteratura e vive no submundo da vida.

0 comentários: